terça-feira, 17 de novembro de 2009

pRENDA&tROVADOR





*Nas fotos, Teixeirinha posa ao lado de sua "consorte" (amante, na realidade: ele era casado com Zoraida), a cantora e acordeonista Mary Terezinha Cabral Brum, Mary Terezinha - hoje rebatizada Mari Terezinha.

Com Mary, o astro gaudério teve dois filhos e ao lado dela travou trovas de arrebatador sucesso, os chamados "desafios": "Briga de Amor", Chumbo Grosso", "Desafio da Louça".

Antes de conhecer o cantor de "Coração de Luto", ainda guria Mary sabia tocar todas as músicas do ídolo. Essa foi a razão pela qual, logo que ele a revelou, levou a alcunha de "Teixeirinha de saias".

Em 1961, aos 13 anos conheceu Teixeirinha numa das andanças do trovador pelos pagos de Tupanciretã, interior do Rio Grande do Sul.
Enlace amoroso à parte, ao longo de 22 anos a querida dupla tropeou por cravejada estrada de populares sucessos.

Detalhe: na última foto, note o 45 empacotado no coldre do "galo velho". Para defender a prenda, certamente. O ciúme, diz-se, era o ponto mais fraco de Teixeirinha.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

tEIXEIRINHA: o dONO dAS bILHETERIAS

"Se eu fizesse música com intenções sofisticadas ou intelectuais, estaria ainda hoje na beira da praia com meu violão, a ver navios. Quando eu escrevi 'Coração de Luto' o povo se definiu logo. Eu sou povo também, e as pessoas gostam de minhas canções porque elas cabem exatamente no ouvido delas".
Palavras de Victor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, ao contrapor a provocação de um jornalista a respeito da suposta alienação de seu cancioneiro durante a seridade musical dos "anos de chumbo".
A impecável resposta (considerando-se a estatura megapopular do astro gaúcho) também cabe como defesa às centenas de críticas - algumas delas positivas - das quais suas produções cinematográficas foram vítimas: desde a estreia do blockbuster Coração de Luto, em 1967, até o derradeiro A Filha de Iemanjá, de 1981.
Ao longo de 14 anos, a Teixeirinha Produções Artísticas LTDA (empresa que era responsável pela gestão dos negócios do artista no baldio terreno da sétima arte no Brasil) rodou 12 filmes de retumbante sucesso, especialmente nos cinemas do Rio Grande do Sul e nos interiores profundos do país.
Passados quase 25 anos da morte de Teixeirinha, em 1985, vítima de câncer do pulmão (detonava três carteiras por dia), seu séquito de fãs ainda espraia-se pela vastidão do território nacional - e mundo afora. Seus admiradores são canadenses, norte-americanos, portugueses.
Em 2006, "Coração de Luto", popularmente zoada como "Churrasquinho de Mãe", ganhou desavergonhado plágio em Portugal, país no qual a canção/cantor sempre desfrutaram fabuloso sucesso.
Além-mar, o pastiche lusitano alcançou as primeiras colocações na parada musical.
No mesmo ano, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) divulgou resultado de uma pesquisa coordenada por João Carlos Rodrigues, representante da Superintendência de Acompanhamento de Mercado (ACO).
O objetivo era tentar responder a seguinte charada:
"Quantos e quais filmes brasileiros fizeram mais de 500 mil espectadores?"
O universo pesquisado foi o dos filmes brasileiros lançados a partir de 1970. Coração de Luto, de 1967, não entrou na lista por ser anterior à apuração. Anteriormente, segundo a ACO, simplesmente não existiam dados confiáveis sobre bilheterias no Brasil.
De acordo com a lista, dos 10 primeiros filmes com maior número de espectadores no Rio Grande do Sul nove (!) deles pertenciam à chancela da Teixeirinha Produções.
Em primeiro lugar figura Motorista Sem Limites, longa dirigido por Milton Barragan cujo lançamento deu-se em agosto de 1970. A película, sucessora do retumbante sucesso Coração de Luto, arrastou 1,8 milhão de pessoas às salas de exibição.
Na décima posição estava O Homem que Copiava (2003), realização de Jorge Furtado.
Fora cantar, trovar e "interpretar" - quesito sobre o qual recai boa parte das críticas logradas desfavoravelmente pelo artista no cinema -, Teixeirinha, em todos as incursões cinematográficas nas quais se aventurou, também se vestia na pele de "mocinho".
Na música, entre as décadas de 1960 a 1980, até seu falecimento, Teixeirinha gravou cerca de 80 discos e compôs aproximadamente 1200 canções. "Coração de Luto", de acordo com o crítico musical Juarez Fonseca, ainda permanece imbatível na posição de "música mais vendida da história do disco no Brasil".
Biaggio Baccarim, ex-diretor artístico da gravadora Chantecler, na qual Teixeirinha gravou quase todos os seus discos, disse que só "Coração de Luto" é responsável pela metade dos 25 milhões de discos vendidos pelo cantor de 1960 a 1995:
"Eu nunca vi nada igual em 37 anos de trabalho na indústria fonográfica", afirmou o paulista Biaggio, hoje assessor jurídico da Warner, gravadora que há três anos comprou o acervo da Chantecler.
Baggio dividiu a Fonseca seguinte causo sobre a façanha fonográfica de "Coração de Luto":
"Nós prensávamos o disco em três fábricas, e mesmo assim não se dava conta. Os caminhões carregados chegavam e nem entravam no depósito, iam direto para as distribuidoras e as lojas. Em lugares mais distantes, como Belém do Pará, enquanto não chegavam novas remessas o disco era vendido no câmbio negro, pelo dobro do preço".
O momento que marca o início dos filmes de Teixeirinha, o final dos anos 1960, coincidiu com a ascensão do Cinema Novo no Brasil.
Segundo a pesquisadora Miriam Rossini, no livro Teixeirinha e o Cinema Gaúcho, quando do anúncio do primeiro filme do músico, Coração de Luto, em 66, os críticos animaram-se diante da perspectiva de que a indústria cinematográfica do Estado pudesse progredir após uma década de decepção.
No início, uma euforia coletiva foi gerada ao redor do filme Coração de Luto. "A todo o momento, a imprensa fazia questão de noticiar o andamento das filmagens, detalhes de produção, distribuição e público", escreve Miriam.
Mesmo assim, explica a doutouranda, era fato certo para a crítica que a imensa bilheteria havia sido causada pelo fluxo dos fãs do artista às salas de cinema: "Alguns críticos locais diziam que 'apesar de Teixeirinha' e do argumento melodramático, o filme era 'bem-feito e caprichado'".
Na época, Milton Barragan, diretor que acompanhou Teixeirinha em muitas das suas produções, saiu em defesa do "patrão":
"Quer queiramos ou não, o cinema de Teixeirinha é válido. Ele expressa uma realidade, verdades que compõem o quadro social do estado. Com todas as suas falhas, é cinema autêntico".
Na opinião de Barragan, Teixeirinha conseguia captar a simplicidade do homem do povo; era a única pessoa produzindo para toda uma camada social excluída dos "projetos culturais".
No post debaixo, curta os cartazes de alguns hits de Teixeirinha na telona. Mas ouça, antes, a canção "Coração de Luto" e, depois, assista a um trecho do homônimo filme (chore com a letra aqui).




fILMES dO tEIXEIRA






sábado, 14 de novembro de 2009

tEIXEIRINHA eSPECIAL (1985)*











*Especial da RBS TV sobre a morte do grande astro (trovador, compositor, realizador cinematográfico) Vítor Mateus Teixeira, o Teixeirinha (1927/1985), também chamado "O Rei do Disco".

Para saber mais sobre quem foi este universal artista, que um dia fez dupla com a linda "prenda" Mary Terezinha, dê uma passada no excelente blog - ainda que desativado - Revivendo Teixeirinha.

O blog era tocado pelo Chico Cougo, mestrando que se aventura numa tese sobre o gaúcho de Rolante. A família também mantém site oficial sobre Teixeirinha, autor do milionário single "Coração de Luto".

Sobre o especial da RBS: um "bah!" para a cobertura "marrom" (parte 4) da emissora, que, na ocasião, pôs mais lenha na fogueira televisionando intimidades um tanto sórdidas sobre o espetacular divórcio da dupla Mary & Teixeirinha.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

bAÚ mUITO bEM tRANCADO*

Disputas judiciais entre familiares de Raul Seixas barram novos lançamentos do músico baiano

POR CRISTIANO BASTOS

Nos anos 60, o "vidente" da comunicação Marshall McLuhan profetizou: "O meio é a mensagem". E a mensagem é, justamente, a herança mais valiosa transmitida pelo missivista do rock brasileiro - Raul Seixas (1945-1989).

A música foi o "meio" escolhido, veículo através do qual, por toda a vida e obra, insultou o "monstro sist". Hoje, contudo, refém de várias contendas judiciais pelo imaterial espólio, tem seu libelo asfixiado pelo mais complexo e surpreendente dos sistemas: a família.

Dos milhares de fãs de Raulzito, morto aos 44 anos, poucos sabem que ele deixou três herdeiras: as filhas Simone Vannoy (38) e Scarlet Vaquer (33), que vivem nos Estados Unidos desde crianças, e Vivian Seixas (27), no Brasil.

As duas primeiras, frutos da união conjugal de Raul com as norte-americanas Edith Wisner e Gloria Vaquer Seixas (hoje Sky Keys), respectivamente; a terceira, fruto do relacionamento amoroso com Angela Affonso Costa, autointitulada Kika Seixas.

Além da abastada fortuna musical, Raul Seixas não deixou patrimônio significativo, sequer existe espólio aberto. Nesses 20 anos, tudo o que suas filhas herdaram consiste em direitos autorais - de execução e imagem - pagos ao longo dos anos.

O astro baiano é o que se pode chamar de "long-seller": verdadeiro fenômeno, absolutamente espontâneo. Antiga, a briga (que nada tem a ver com música) desenrola-se em um cenário "internacional".

Nos Estados Unidos, as sucessoras de Raulzito defendem o lançamento de vários projetos envolvendo a obra do pai - muitos dos quais vetados na Justiça por Kika Seixas, que hoje atua como procuradora legal da filha, Vivian Seixas.

A procuradora de Simone Vannoy, a advogada Flávia Vasconcelos, ressalta que as três herdeiras detêm todos os direitos de autor e conexos relativos à obra de Raul Seixas, assim como os direitos de uso de sua imagem e nome.

Na prática, pontua, significa que somente elas podem autorizar ou desautorizar qualquer projeto:

"O equívoco ocorre porque muitos consideram Kika como 'viúva de Raul Seixas' e, em consequência, detentora de tais direitos. No entanto, como não se casaram oficialmente, ela não é viúva dele". Apenas Simone, Scarlet e Vivian são as legítimas herdeiras.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 38 da Rolling Stone, novembro/2009
*Pobre grande Raul...

Antes de partir, a certeira verve de Raulzito ainda legou essa pérola. Contra os desmandos dos "vivos", serve - no além - como uma de suas mais perfeitas defesas:

"Eu perco pra malandro, perco pra ladrão. Perco para espertinhos e espertões. Perco na transação bancária, nos juros. Na taxa diária. Ah, mas na sabedoria é que eu ganho de vocês. Essa ninguém me tira". (Raul Seixas)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

fREE tEIXEIRINHA


sábado, 31 de outubro de 2009

mOSAICOS: a aRTE dE nELSON gONÇALVES (dOC)









quinta-feira, 29 de outubro de 2009

lOLLIPOP, cALCINHAS & cOLEÇÕES

A farra gratuita dos downloads romantiza as clássicas dificuldades que o colecionador de discos da velha estirpe dos analógicos tinha de passar até que um dos bons pousasse no seu "aparelho de som".
Os que restaram dessa espécie - virtualmente extinta - seguem a perscrutar o globo terrestre, entre sebos e ultramegastores, no encalço do Grande Álbum Perdido. A memória do velho colecionador deve ser preservada para as novas gerações. Seus dias estão contados.
Logo essa busca de fé ficará sob o domínio especializado de confrarias. É bonito, mas o compartilhamento de arquivos sonoros pela internet (que de novo não tem nada) é mais lindo ainda: o maior milagre realizado no século passado.
O obcecado colecionador não apenas comprava o disco na loja. Com direito a transporte naval ou aéreo até a porta de sua casa, ele empreendia destemida caça ao tesouro.
Encomenda variável entre o fino da pirataria e a mais rebuscada edição oficial catalogada. Epopéia grega, se comparada às facilidades oferecidas por zilhões de enclaves que entregam de lambuja o mapa da mina musical nos mares da web.
Há uma década (um século, porém, na senda do progresso) conseguir aquele disco raro daquela sua banda favorita que nunca-foi-lançado-no-Brasil-e-nunca-o-seria significava a eternidade.
Eternidade com elevado custo para bolsos juvenis vazios, só compensada pelo inigualável deleite místico que vinha como garantia total do produto. O fetiche acalentado por meses materializava-se, afinal, com a chegada da sonhada encomenda.
Mercadoria entregue, o ritual fetichista. Primeiro, fase de excitação: o desembalar do disco, desnudado de seu invólucro como a calcinha que se libera gentilmente das pernas da fêmea pelo ávido controle de suas mãos.
Em seguida, o aguardado momento de abrir a delicada caixinha: olhos fechados para sentir a flagrância evolada pela sedutora química erótico-serigráfica. Que somente as delicadas circunferências têm – que os discos rígidos nunca terão.
O mínimo a fazer é amor com a música, como se fosse a mulher amada. Você esperou aquela música cruzar oceanos revoltos de tempo, imensidões e profundezas abissais para estar com você na intimidade lhe sussurrando melodias ao pé da cama.
Entregue-se. Se fuma, vá em frente: acenda um cigarro. Se ainda fumasse, certamente eu acenderia um Marlboro. Deve ser apenas por causa de sexo & música, além da Primeira Grande Guerra, que inventaram os cigarros.
Veneno de luxo - O colecionador que se criou chafurdando nas lojinhas de discos do bairro ou do centro da cidade (e de todos os lugares pelos quais pisavam seus pés) ainda demorará para ser extinto.
Nas colônias de férias dos colecionadores das antigas nunca faltará uma reedição do In-a-Gadda-da-Vida ou uma versão mono remasterizada do The Piper at the Gates of Dawn. Já os colecionadores modernos têm acesso à praticamente tudo produzido na música do Planeta.
Pela lógica, sem mais ter mais o que colecionar, a raça dos analógicos seria consumada. Os downloaders convictos, todavia, nunca vão sentir o inigualável prazer que é pagar do próprio bolso por uma obra, seus direitos autorais e incontáveis impostos embutidos.
Isto é, prazer livre de culpas.
Por outro lado, também nunca saberão o que é ter o bolso ardendo em cerca de R$ 100 a menos por um disco importado. Com tanta dor, o prazer da compra é facilmente sublimável.
Nunca vou esquecer das inúmeras fases de encomenda e esperas por discos na minha adolescência. Em Porto Alegre, entre outras lojinhas, comprava-os na acolhedora Toca dos Discos, que resiste até hoje na Rua Garibaldi.
Lembro bem que numa brilhante manhã de inverno sobre o bairro BomFim arrebatei poderosa edição da coletânea Sladest!, do Slade, que escutei muito.
Na Toca comprei Too Much Too Soon, dos New York Dolls, ouvido duzentas mil vezes para ver se percebia novos detalhes na guitarra do Johnny Thunders. Mesmo sabendo que grandes detalhes não era, exatamente, o que se podia esperar daquele disco.
O que se podia esperar era uma dose de energia sonora capaz de te fazer levantar, se estivesse sentado e pular, se estivesse de pé.
Too Much Too Soon era encomenda dos festejados tempos em que o dólar valia one by one com o real, por volta de 1997, quando muitos obstinados aproveitaram para completar suas intermináveis coleções.
Foi a época do regozijo - fenômeno que nunca mais se repetiu no Brasil. Quando a moeda americana voltou a estabilizar o naufrágio se abateu sobre o negócio dos colecionadores.
Outra loja que ainda está no ramo dos "venenos" - nem sempre baratos - em Porto Alegre é a Boca do Disco. O comércio de discos pertence ao lendário Getúlio, cuja irmã é casada com Cid Moreira (de onde -vejam só - saiu o capital inicial pro negócio).
Até hoje, Getúlio vende seu peixe - ou melhor: seu "churrasco de raridades". Sem desfazer-se do bordão pelo qual ficou conhecido: "Leva que é costela gorda, magrão!".
Não era fácil montar uma coleção de respeito. Houve o tempo em que, por telefone (!), eu consultava catálogos de lojas paulistanas, como a London Calling.
Com a ressalva de ter que suportar o atendimento ultrablasé do cara na outra extremidade da linha – um sujeito que, contrariando todos os preceitos universais da mais-valia, não dissimulava o ciúme pela perda de suas jóias.
Ressaltando que, na época, a London Calling vendia as edições mais especializadas do ramo. Com preço e antipatia idem. Os venenos eram trazidos diretamente de quebradas londrinas pra lá de confirmadas.
Só em Alvorada - Nos tempos pré-download, só fui ouvir um disco dos Dead Boys por causa de um amigo que tinha uma banda punk, a Unidos pelo Ódio. O nome dele era Julinho. Um cara que morava em Alvorada, lugar tipo New Jersey, na região Metropolitana de Porto Alegre.
Território ideal para a legitimação de um "status quo punk". Julinho calçava sapatos comprados no varejo popular do centro de Porto Alegre, cujas modelagens ficavam penduradas em fieiras com jaquetas de nylon e calças de moleton.
Pra fazer a cabeça do Julinho, trago de cachaça, cigarros Derby e sua parceria com William Caveman. A dupla arrebentava atacando versões para Heartbreakers, Clash e Sham 69.
Fanta Uva, só com pinga.
Antes do Julinho surgir com Young, Loud and Snotty, os Dead Boys, eram para mim apenas um mistério do rock. Se podia ler tudo sobre eles em Please Kill Me, entretanto, era praticamente impossível era ouví-los.
Só em Alvorada.
Na faculdade de jornalismo da PUC teve um cara que quase ficou famoso. Tão quase famoso que ficou conhecido como "O Cara das Fitas". Jamais se soube seu verdadeiro nome. Sua fama, no entanto, precedeu-lhe.
Virou personagem de tira de HQ criada pelo Nik Neves na finada revista ZE. Chegou a ser personagem do livro Gauleses Irredutíveis. Para quem o conheceu, hoje o Cara das Fitas é o paradigma tecnológico vivo.
Nos corredores da Famecos, fazia vítimas como velociraptor. Em grupos ou individualmente, abordava com a persuasiva - e inesquecível - pergunta:
"Querem dar uma olhada na minha lista de fitas?".
Sua lista de fitas (dita seja a verdade) tinha um monte de coisas legais. O Carlinhos Carneiro comprou uma Basf 90 com os dois Kinks psicodélicos, Village Green e Arthur, um de cada lado. Ficou impressionado com Blur lembrava Kinks. Todos queriam xerocar sua fitinha.
Por volta de 99, o Cara das Fitas foi obrigado a adaptar seu negócio aos novos tempos:
"Querem dar uma olhada na minha lista de fitas? Agora com cd's gravados", reformulava - sem, claro, mudar o famoso bordão-base.
Para os colecionadores convertidos aos novos tempos, a internet é o Jardim do Éden. Dádiva do Deus do Rock (Elvis?) aos seus súditos.
Mas é bom aproveitar: a mamata dos downloads - como tudo o que é bom - não deve durar para sempre. Pra variar, tem muita grana em jogo.
Contudo, levando em conta a areia movediça sobre a qual a indústria discográfica se debate, o orgasmo promete ainda se prolongar: Let's get it on Let's get it on.
Dos álbuns que "algum dia ainda tinha de ouvir" (coleção, aliás, que todo mundo deve ter a sua), Psychedelic Lollipop (1966), do quinteto novaiorquino The Blues Magoos, é desses que haviam ficado para trás.
Sem preliminares; só dois pontos: Psychedelic Lollipop abre com a fenomenal "(We ain't got) Nothin' Yet", que entrou no top 10 EUA e, por lá, descansou de dezembro de 66 a fevereiro de 67. O single vendeu um 1 milhão de cópias.
Enquanto "Tobacco Road" desfecha em sinuosos ruídos, as colantes batidas de "Gotta Get Away" e "One by One" explicam o sucesso nas paradas.
"Love Seems Doomed" (a-t-e-n-ç-ã-o para as iniciais!) é uma viagem de amor por paragens lisérgicas. Não se acanhe e baixe Psychedelic Lollipop. Não é como baixar as calcinhas da garota que você ama, mas a diversão é garantida.
Vai por mim.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

pIPELINE!









domingo, 25 de outubro de 2009

mETAMORFOSE aMBULANTE (rAUL sEIXAS)

Em 1977, o autocrítico Raul Seixas registrou em seu diário: "Attention, Raul, para não se alienar sendo apenas o compositor carismático que é Raul Seixas. Vide a dica de 'Metaforfose Ambulante' (que eu compus com 14 anos ou menos):
'Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou/ Se hoje eu te odeio, amanhã...'".
Originalmente um blues, ainda menino Raulzito rabiscou a letra dessa existencialista canção na parede de sua casa em Salvador.
Naturalmente, entre dezenas de hits legados pelo compositor, a música - um das mais fortes do cultuado álbum Krig-há, bandolo! - está longe de ser a única pela qual o retado baiano será lembrado até o fim dos tempos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

100 mAIORAIS

São essas as 20 canções votadas por mim na lista da Rolling Stone (edição especial comemorativa de três anos, nas bancas), que elegeu as "100 Maiores Músicas Brasileiras". Nem dez listas, contudo, seriam suficientes para desfilar o milionário "the best of" do cancioneiro nacional.

Tais escolhas sempre são missões
árduas de cumprir.

Como, acima dos cânones, creio mais ainda é na subjetividade, não espero concordância; eu mesmo refaria a lista inúmeras vezes.

"Maria Bethânia" - (Capiba)
"Três apitos" - (Noel Rosa)
"Negue" - (Adelino Moreira)
"Eu quero é botar meu bloco na rua" - (Sérgio Sampaio)
"Será que eu vou virar bolor" - (Arnaldo Baptista)
"Barra Lúcifer" - (Novos Baianos)
"Abigail" - (Wilson Baptista e Orestes Barbosa)
"Você não serve pra mim" - (Roberto Carlos)
"Sentado à beira do caminho" - (Erasmo Carlos)
"Ouro de tolo" - (Raul Seixas)
"Manhãs de Sol" - (Francisco Alves)
"Georgia a carniceira" - (Ave Sangria)
"Canteiros" - (Fagner)
"Respeita Januário" - (Luiz Gonzaga)
"Felicidade" - (Lupícinio Rodrigues)
"Vou danado pra Catende" - (Alceu Valença)
"Primavera" - (Tim Maia)
"Good rocking tonight" - (Raulzito Seixas aos nove anos)
"Trilha de Sumé" - (Lula Côrtes/Zé Ramalho)
"O Futuro é Vórtex" - (Os Replicantes)

Leia e ouça as dez primeiras colocadas no site da Rolling Stone.

Também escrevi sobre cinco eleitas:

"Ouro de tolo", "Metamorfose ambulante", "A flor e o espinho", "Conversa de Botequim" e "Tico-tico no fubá".

"Ouro de Tolo" (Raul Seixas)

Acaso o destino tivesse barrado Raul Seixas, no panteão dos maiores compositores pátrios, bastaria, porém, apenas uma de suas canções para assegurar-lhe eternidade: "Ouro de Tolo". É a música-chave do álbum Krig-há, bandolo!, editado, em 1973, pela Phillips (gravadora dos conterrâneos Gil e Caetano).

Em uma semana, o compacto alcançou tamanha popularidade que se fez necessário prensá-lo duas vezes. Naqueles tempos de milagre econômico, a letra autobiográfica de Raulzito soou como sonoro tabefe desferido na cara da classe média.

"Ouro de Tolo", na Idade Média, era nome dado às promessas de falsos alquimistas. A canção também embalou audaciosa tacada de marketing, bolada por Paulo Coelho, para transmitir aos lares brasileiros preceitos da Sociedade Alternativa.

No dia 7 de junho de 73, no centro do Rio de Janeiro, Raul Seixas convocou a imprensa para registrar sua aparição entoando "Ouro de Tolo" em rede nacional. O "golpe" surtiu efeito. A cena foi exibida no Jornal Nacional e Raul ganhou o Brasil.


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

cAPTAIN bEEFHEART BBC dOC (1997)











cAMISOLA dO dIA


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

oNE pLUS oNE/sYMPATHY fOR tHE dEVIL





sTYLEPOWER


O suicídio de Ian Curtis, no dia 18 de maio de 1980, fechou dois ciclos: de sua célere existência e do punk - esteticamente dizendo.
A "tensão'77", insulflada pelo punk, contra o stablishment (da música e da sociedade) foi substituída pelo "pesar'80" de Curtis, que amparou-se na dor contra sua própria vida.
O Joy Division não só fez chover uma nuvem negra sobre o rock como escalou um séquito de crias, como o Sisters of Mercy e o Bauhaus.
Os herdeiros da melancolia ainda procriaram entre si. Muitos ainda vagam por aí, moribundos, choramingando pelos cantos. Carregam, em seu calvário particular, o slogan "Poesia por um Mundo Mais Obscuro e Triste".
Há quem diverta-se com goticismos (é certo que Robert Smith sempre tirou sua onda), assim como há quem se contente sendo o placebo do Placebo. Isto é: o nada do nada.
A new wave fez um "psicodrama" no rock e varreu do mapa a deprê pós-punk.
Evidente que, faceira, a depressão continuou rolando em úmidos porõezinhos submundanos. Nada comparável, entretanto, ao gênio bem-humorado do Devo, Talking Heads, The Knack e B-52's - as bandas que escarneceram acrílica felicidade na cara dos tristões e tristonas.
A nova onda pop varreu tudo pelas redondezas e, entre jóias soltas na enxurrada, carga abundante de poptrash foi acumular-se no ralo das Fm's. Coisas legais dos anos 1980 foram parar em "filmes de geração", como Ferris Bueller's Day Off (Curtindo a Vida Adoidado), de 86.
Não tardou para que a nova onda se subdividisse em tipologias mais complexas e bizarras. Na Inglaterra chegou a rolar um litígio de formas, chamado "A Guerra de Estilos".
Durante a guerrilha pouser, o do-it-yourself foi mandado às cucuias. Entrava em voga o "stylepower" - o poder do estilo: androginia setentista versus vestes sessentistas, cortes de cabelo punk, cores vibrantes e cítricas, ombreiras e gel.
Além de frufrus e rococós até não poder mais.
O confronto visual gerou novas correntes. A exacerbada new romantic gerou mais um bando de "poodles": Spandau Ballet, Duran Duran, Human League, Adan and the Ants e Blow Wow Wow.
O último é outro conjunto inventado por Malcom McLaren.
Na crista dessa onda, a loja Sex, empresariada por McLaren, virou World's End, especializada em looks sob medida para novos românticos: indumentárias de Napoleão, trajes de pirata, fantasias de guerreiros japoneses.
Outra facção new waver era a dos grupos technopop Depeche Mode, Soft Cell, Heaven 17 e Yazoo. A new wave - que não era só festiva - também tinha sua ala não-afetada e trabalhista.
Vindos da classe trabalhadora, Dexy's Midnight Runners, XTC, The Skids e Angelic Upstars engajavam-se a favor da redução da jornada de trabalho e por melhores salários.
Plastic Bertrand, The Normal Suburban Lawns, Martha & The Muffins, Gleaming Spires, The Monroes são nomes condenados a nunca mais se ouvir falar.
Superlativa, a new wave ainda gestou outras aberrações que nem valem comentário. São marolas de uma maré que - para pior - já havia mudado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

mATA-mE pOR fAVOR

Ao vestir a famosa t-shirt com os dizeres "I Hate Pink Floyd!", Johnny Rotten deu pontapé inaugural no plano que o falsário Malcom McLaren vinha mirabolando com sua esposa e sócia, a estilista Vivienne Westwood:
Armar-se de moda e niilismo para destronar o rock de sua grandeza monolítica. E encher os bolsos de dinheiro.
O casal era dono da Sex, loja que produzia modelitos em série para abastecer o visual extravagante das primeiras levas da juvenília punk que, em 1977, proliferava-se nas ruas inglesas.
McLaren sempre foi obsessivo pelo binômio moda & rock. Para ele, uma coisa completava outra.
A moda foi das uma razões para as quais ter se oferecido para empresariar os New York Dolls na fase da decadência plena.
Sujeito tão espertalhão que convenceu os Dolls (primeira banda de travestis heterossexuais da história) a fantasiarem-se de comunas embalados em vinil vermelho-glitter - em plena Guerra Fria.
É a indumentária que exibem na capa do álbum ao vivo Red Patent Leather, de 1975.
No colégio, Vivienne Westwood customizava radicalmente os uniformes de suas colegas. Cortava-os para dar mais movimento às saias e, além de esvoaçantes, deixá-las o mais fashion possível.
Quando Westwood "inventou" o vestuário punk tinha na cabeça, basicamente, duas palavras de ordem: política e erotismo trash. Determinou que o punk era bicolor e elegeu preto e vermelho suas cores oficiais.
Vivienne tirou as correntes do anonimato sadô-maso, decretou que rasgos são cool e que tachas e alfinetes de segurança eram acessórios obrigatórios. Por certo tempo, esse foi "o grito" em moda rock.
Grito que reverberou quando o gênero subdividiu-se em pós-punk, new wave e, finalmente, em hardcore. Possivelmente, o old fashioned Billy Idol (ex-Generation X) - o qual, ainda hoje, enfeita-se como em 1977 - é ícone derradeiro do período.
Em Nova York, jardim das vaidades no qual o vírus punk foi inoculado, no anoitecer dos anos 60, a moda obedecia parâmetros mais cartesianos:
Ou as bandas eram elegantes (Blondie); fetichistas & luxuriosas (Velvet Underground); ou calculadamente desleixadas (Voidoids).
Westwood e Katharine Hamnett (nos anos 80) - as duas grandes damas do estilismo punk - são inglesas. Todavia, quem lançou a moda foi o norte-americano Richard Hell.
Blank Generation - Richard Hell (ex-Televison/Heartbrekers) picotava o próprio cabelo, detonava suas calças, sujava seus tênis e adaptava suas t-shirts no melhor estilo faça-você-mesmo.
Uma de suas criações exibia o slogan-súplica "Please Kill Me", que intitulou o livro (Mate-me Por Favor, no Brasil) apurado por Legs McNeil e Gillian McCain, que entrega toda história e toda lama revolvidas em quase quatro décadas de punk.
Em formato pocket book, a edição brasileira, cuja tradução é de Lúcia Brito, encontra-se em qualquer "livraria de supermercado". A diversão é garantida.
O pink floyd David Gilmour afirmou que nunca sentiu-se um "fashion victim". Segundo confessou posteriormente, na época, até considerou charmoso o provocativo "I hate Pink Floyd" grafado na camiseta de Johnny Rotten.
Sabia que tratava-se, no fundo, de esperta tacada de marketing:
"Para mim, sempre tivemos (O Pink Floyd) um apelo underground. Menos, suponho, na mídia. Quando Johnny Rotten usou a charmosa t-shirt estampada com 'Eu odeio Pink Floyd', ele até me falou que era fã. Tinha a ver com a imagem dele e nada a ver com a nossa música", Gilmor contemporizou.
Nos anos 80, Katharine Hamnett levou título de "a primeira guerrilheira da moda", ao apresentar sua coleção de folgadas t-shirts com slogans de protesto político - sempre grafados em negrito e em letras maiúsculas.
Sua última esquisitice foi o lançamento de uma linha de camisetas para homens, as quais vinham com frases criadas sobre fatos ocorridos no ano de 1983.
Algumas delas: "Education Not Missiles", "Stay Alive In 83" e "Worldwide Nuclear Bang Now".
Hamnett também criou slogans para a banda Frankie Goes To Hollywood. Uma dessas peças, "Frankie Say Relax", foi alçada ao hype e vendeu incrível numerário de 150 mil (!) unidades.
Malcom Mclaren, porém, foi imbatível: o mais sacana dos plagiadores parido um dia pelo rock. Até hoje, ninguém desbanca-o nos quesitos malandragem, visão comercial e revolução estética.
Frases tortas e sujas vomitadas pelos Sex Pistols, de suas músicas, como "Get Pissed Destroy" e "No Future", boa parte foi descaradamente encampada das cartilhas especto-situacionistas.
Truque que residia em efeitos meramente semânticos, na fúria sonora sinceramente agressiva e nos alvos que tinham sob mira de suas pistolas sexuais.
No decálago "Como Fabricar seu Grupo", do filme The Great Rock'n'Roll Swindle, de Julian Temple, o sexto mandamento de MacLaren é: "Roube o máximo de dinheiro da gravadora de sua escolha".
O nono: "Leve a Civilização aos Bárbaros - os EUA". E, o décimo, a nonsense indagação: "Quem Matou Bambi?".
Se McLaren é filho bastardo do filósofo Guy Debord, por sua vez, a paternidade do situacionista pertence ao romeno Tristan Tzara. Do poeta dadaísta, Debord saqueou a sentença que poupa séculos da discussão sobre propriedade artística:

"Criar é divino; reproduzir é humano".

terça-feira, 29 de setembro de 2009

nELSON nO pRESÍDIO*

No domingo à tarde, as internas do Presídio de Mulheres de Piraquara tiveram o melhor presente do ano: um show exclusivo com Nelson Gonçalves.
A própria diretora do presídio, advogada Eny Carbonar, chegou às lágrimas pela satisfação de receber naquela casa de detenção o cantor brasileiro de maior prestígio junto às faixas humildes.
Nelson Gonçalves, 58 anos, 40 de vida artística, havia feito no sábado um show no Guairão, com excelente público (apesar da tempestade que caiu sobre a cidade), viajou em seguida à Itajaí, onde apresentou-se num clube, retornou a Curitiba e, apesar do compromisso de novo show no teatro, à noite, aceitou o convite que Eny lhe fez.
Artista que, há pouco mais de 10 anos, atravessou um terrível período em sua vida, chegando à prisão devido ao uso de tóxicos, Nelson jamais se nega a, em suas horas de folga - e sacrificando mesmo o seu repouso (como ocorreu no domingo a tarde) a alegrar os dias cinzentos das pessoas que o destino levou às penitenciárias.
Durante mais de 30 minutos, conversou com as humildes sentenciadas, cantou seus maiores sucessos e distribuiu autógrafos. Ao sair, recebeu o cachê que o emocionou: o beijo de uma criança de 5 anos, filha de uma das presidiárias e a promessa de uma tapeçaria, executada pelas internas.
O Último Boêmio - Nelson Gonçalves vai assinar um milionário contrato com a Warner Communications, para atuar num filme baseado em sua vida, com o título de O Último Boêmio.
Receberá um "advanced" de Cr$ 1.600.000,00 e terá mais 20% sobre a bilheteria, o que deverá ampliar sua fortuna, já que seu público em todo o Brasil é imenso, traduzido no fato de já ter vendido 28 milhões de cópias de seus discos e ter, atualmente, em catálogo, na RCA - gravadora na qual se encontrou desde que começou sua carreira - nada menos que 31 elepês, fato único da história da fonografia brasileira.
Seu 84º elepê (já gravou 272 em 78 rpm e 268 compactos) sairá dia 29 e tem o título de "Reserva de Domínio". Traz quatro músicas de seu eterno compositor (e agora também empresário) Adelino Moreira e quatro regravações de músicas românticas:
"Ninguém Me Ama" "Dá-me Tuas Mãos", "Saia do Meu Caminho" e "Olhos Nos Olhos".
Fazendo shows no mínimo de Cr$ 30 mil - e chegando até a Cr$ 400 mil (como a Souza Cruz lhe pagará, para 4 apresentações, ao lado de Pedro Vargas, no Anhembi e Canecão, em setembro), gravando de 2 a 5 elepê por ano - cada um com uma média de 200 mil cópias (mesmo um álbum triplo, a Cr$ 340,00, como foi o "Nelson de 3 Gerações", já vendeu 130 mil cópias).
Nelson é hoje já dono de um apreciável patrimônio: 22 apartamentos e casas em São Paulo e Rio de Janeiro (atualmente mora e Niterói), uma fazenda de criação de gado em Caxambu, MG, e depósitos imensos em cadernetas de poupanças.
Com 2 filhos legítimos e 8 adotivos, pouco tempo tem para a família: normalmente viaja 5 dias por semana, e além de temporadas mais prolongadas, como a que fez agora, pelo Paraná e Santa Catarina, empresada por Avelar Amorim.
Pretende trabalhar no atual ritmo por mais dois anos, quando então espaçará suas gravações para apenas um elepê por ano e um show por mês. Por enquanto, vai mantendo uma agenda estafante mas altamente compensadora.
Afinal, os compromissos são tantos que só com os 20% que dava ao seu antigo empresário, Antonio Touro, ele faturava Cr$4 120 mil por mês. Mas como não se satisfez com isso, acabou perdendo o emprego.
Agora é o próprio parceiro e amigo Adelino Moreira quem está administrando a vida profissional de Nelson tendo inclusive o acompanhado à Curitiba.
*Publicado no O Estado do Paraná em 16 de agosto de 1977.

sábado, 26 de setembro de 2009

aCHADOS dO nELSON





quinta-feira, 10 de setembro de 2009

mOLEQUE mARAVILHOSO*

Nos 20 anos de sua morte, o lendário Raul Seixas é lembrado em depoimentos inéditos por seus primeiros colaboradores e amigos de infância como uma alma consagrada ao rock’n’roll

POR CRISTIANO BASTOS / FOTOS: CONCEIÇÃO ALMEIDA

Estamos onde, de fato, tudo começou – há 64 anos atrás. No centro antigo de Salvador, capital da Bahia, a Praça da Piedade oculta vicejantes episódios da ancestralidade e da modernidade nacional.

Um dos mais antigos logradouros, no período monárquico, a “Piedade” era sítio usado para execuções públicas. No século 20, converteu-se numa espécie de parque de diversões da classe média. E, de outro flanco, no ambiente que agremiava o Centro Popular de Cultura (CPC), o qual alistava uma fração da inteligência baiana.

Promissores nomes, como Waly Salomão, Tom Zé, Gilberto Gil e Caetano Veloso, labutaram no CPC. A principal avenida que serve a velha Piedade é a Sete de Setembro – primeiro endereço do personagem mais emblemático do rock brasileiro:

Raul Santos Seixas, filho de Dona Maria Eugenia e do engenheiro Raul Varella Seixas.

Antes de metamorfosear-se Raul Seixas, ele era Raulzito. “É apelido de família. Meu avô se chamava Raulzão, meu pai Raulzinho. Eu tinha que ser Raulzito, menor ainda. Meu filho vai ser Raulzitinho, no mínimo”, contou o próprio em uma gravação do raro LP Let Me Sing My Rock and Roll.

Aparado nas mãos de uma parteira, Raul Seixas nasceu às 8h da manhã do dia 28 de junho de 1945. Partiu para outra dimensão às 7h da manhã de 21 de agosto de 1989, aos 44 anos. Foi encontrado morto em seu apartamento, na capital paulista, pela empregada Dalva Borges.

Causa mortis: pancreatite aguda causada pelo excesso de álcool. A brevidade de sua vida, porém, é abissal contraponto frente à poderosa mitologia que incendiou em volta de si.

Guiado pelo amigo de infância de Raulzito, o infatigável Thildo Gama – no alto de seus 65 anos –, percorremos os principais pontos de Salvador, onde essa história flamejou suas primeiras chamas. Thildo e Raulzito se conheceram em 1959, nos tempos do Colégio Ipiranga.

Três anos depois formaram seu primeiro grupo, Os Relâmpagos do Rock, embrião do conjunto Os Panteras.

“Lembro-me de Raul matando aula e chegando em minha casa todos os dias, às 7h da manhã. Acordava com ele ao lado da minha cama, com um violão, cantando rocks dos discos importados que ganhava de seus amigos estrangeiros”, conta Thildo, enquanto cruzamos a Piedade em direção à Sete de Setembro.

Vou conhecer a casa onde Raul teve suas fraldas trocadas. A residência localizava-se em cima de uma loja de consertos de refrigeradores que pertencera ao tio de Raul – o “Lulu Geladeira”. No ponto, hoje funciona uma confecção de roupas.

Foi na antiga loja que, b rincando de “ver quem demorava mais”, o irmão de Raul, Plininho, cinco anos mais novo, deixou Raulzito trancado dentro da Frigidaire. Salvou-lhe a mãe, mas o guri virou claustrofóbico.

“Eu suava, todo apertado. De repente, acordei na cama”, escreveu no seu diário, aos nove anos. Atravessando a rua, fica o Clube Comercial, onde Os Relâmpagos do Rock embalaram a edição do concurso Miss Bahia de 1961.

Distante dali alguns quilômetros, o Largo de Roma, na Cidade Baixa, abriga os escombros do Cinema Roma – o “Templo do Rock na Bahia”. O prédio está interditado para reformas. Desde 1983 não é mais o palco sobre o qual cintilaram estrelas da constelação de Jerry Adriani, Wanderléa e Roberto Carlos – além do próprio Raul.

No dia 6 de junho de 1965, Roberto Carlos estreou na Bahia cantando no Cinema Roma acompanhado de Raulzito e Seus Panteras, que se firmava como o melhor conjunto de baile da capital. Thildo tocou nesse dia.

Ele aponta a porta de acesso nos fundos do Roma: “Roberto Carlos chegou de táxi. Raul e eu o ajudamos a descer com a guitarra e um amplificador Phelpa. Ficamos com Roberto no camarim até a hora do show”.

Comandadas por Waldir Serrão, mais tarde conhecido como Big Ben, as sessões de jovem guarda animavam as matinês de domingo em Salvador. Na trincheira inimiga, ficavam os opositores, “beócios, comunistas baratos”, segundo Thildo.

Era uma guerra: Teatro Vila Velha contra Cinema Roma. “A turma do rock frequentava o Roma e o Vila Velha era o lugar dos intelectuais: Caetano e Gil, meus inimigos”, contou Raul a seu diário. Antes de seguir ao encontro de Big Ben, cruzamos Salvador.

Destino: visitar a moradia na qual Raul viveu até seus 15 anos. No quintal do domicílio, localizado na Rua Rio Itapicuru, em 1958, Raul e Serrão posaram para o célebre retrato (cabelo pimpão e trejeitos de bad boy) no qual são enquadrados apertando-se as mãos.

Meio século depois, amarelecida pelo tempo, a parede que serviu de fundo à fotografia ficou de pé. Nesta mesma parede, Raul esboçou, aos 15 anos, a ideia de “Metamorfose Ambulante” – originalmente um blues.

Em seu diário, reproduzido no livro O Baú do Raul Revirado (Ediouro), Raulzito legendou na foto:

“Com Waldir Serrão: o primeiro rocker da Bahia. Waldir Serrão era inovador”. Sobre si mesmo, traçou: “Tudo era novo pra mim. Ouvia os discos de Elvis e Little Richard até estragar os sulcros (sic). O rock era como uma chave que abriria as minhas portas que viviam fechadas”.

No período da Segunda Guerra Mundial, situa Thildo, os navios-escola da Operação Unitas, da marinha norte-americana, aportavam no cais de Salvador. As embarcações traziam a bordo orquestras, as quais apresentavam os ritmos ianques em praça pública.

Os filhos desses estrangeiros estudavam numa escola perto da casa de Raulzito. Ele aprendeu, com eles, a falar inglês, e deles ganhou seus primeiros compactos de rock’n’roll. Entre os gringos, conheceu a primeira de suas quatro esposas: Edith Wisner.

Na puberdade, o norte-americano Daniel Dickanson teve aulas de violão com Raulzito.

“Eu morava a dois quarteirões da família Santos Seixas. Nossas mães ficaram amigas.” Em 1967, no summer of love, Daniel retornou a seu país. Os dois passaram a se corresponder trocando LPs por intermédio do correio diplomático.

“Enviei para Raul We’re Only in It for the Money, do Mothers of Invention, que inspirou Sessão das Dez. Em junho de 1967, remeti Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Provavelmente, a cópia esteve entre as primeiras que chegaram ao Brasil.”

No ano em que o fab four lançava o mais prestigiado álbum de rock de todos os tempos, o astro Jerry Adriani foi se apresentar em Salvador, acompanhado da cantora Nara Leão e do humorista Chico Anysio.

Para acompanhar o trio, o empresário Carlos Silva recrutou o conjunto The Jormans, que tinha dois negros em sua formação. Só que, na última hora, a preconceituosa sociedade baiana barrou-os na entrada. O jeito foi ligar às pressas para Eládio Gilbraz, guitarrista dos Panteras.

Éramos os únicos na Bahia em condições de tocar com qualquer artista sem ensaiar antes”, lembra Eládio, “quebramos o maior galho”. Raul, mais de uma vez, falou: “O pessoal que vinha do Rio ouvia falar do grupo baiano que mais entendia de rock’n’roll: Raulzito & os Panteras”.

A imagem de Nara é fotograma vivo na memória de Jerry Adriani: “Ela apoiou-se no violão para nos ver tocar, parece que foi ontem”. Intuitiva, após a apresentação ela procurou o cantor: “Chama os Panteras para tocar contigo”, recomendou.

Jerry ouviu a sugestão e, por meio de Raulzito, intimou os Panteras: “Vão para o Rio”. De imediato, a reação do baiano foi titubear: “Mas eu acabei de me casar”, disse. Dois meses depois, na residência de Chico Anysio, no Rio, Adriani propôs aos Panteras que lhe acompanhassem numa excursão pelo Nordeste do Brasil.

Em terreno fluminense, Chico Anysio levou a banda ao seu humorístico na TV. Na gravadora Odeon, o apoio foi dado por Roberto Carlos. Nos bastidores, de acordo com Adriani, sempre que pintava oportunidade, Raulzito mostrava-lhe uns “cadernos muito interessantes”.

O cantor começou a fazer a cabeça do diretor da gravadora CBS, Evandro Ribeiro, para que o talentoso baiano produzisse Jerry, seu álbum de 1970. “No fundo, quem me lançou foi o Raulzito”, Adriani faz justiça. E confessa: “Eu tinha muito medo de mudar”.

A partir de Jerry a guinada em sua produção é perceptível – desde a capa (posando de Elvis) às composições menos ingênuas. Nesse LP, dois hits têm autoria de Raulzito: a power pop “Se Pensamento Falasse” e o soul “Seu Táxi Está Esperando”.

Lenda do rock brasileiro, Waldir “Big Ben” Serrão sobrevive às duras penas desde que perdeu seu emprego de apresentador na TV Itapoã. Alçou vários artistas locais ao sucesso e, agora, encontra-se esquecido.

“Ajudei muita gente com meu programa, nos anos 70, mas ninguém quer saber”, lastima. Ele mora num conjunto habitacional na periferia do bairro São Cristóvão. Aos 67 anos, enfrentando problemas de saúde, ainda devota sua fidelidade à divindade máxima: Elvis Aaron Presley.

Sentado em frente a um pôster do Rei norte-americano, a cabeça do velho homem funciona perfeitamente. Ao admirar a fotografia cinquentenária feita na casa da Rua Rio Itapicuru, Serrão recorda: “O Raulzito tinha mania de fazer pose de James Dean; e eu de Elvis”.

Big Ben mantém vívido o dia em que o conheceu:

“Quem nos apresentou foi Titó, um amigo em comum, que marcou encontro no Largo da Boa Viagem. De cara, um perguntou ao outro: ‘Quem tem mais discos? Você ou eu?’ E eu ganhei porque tinha mais álbuns de coleção: Pat Boone, Little Richard, Buddy Holly. Falei pra ele: ‘Quero ver a sua discoteca’. Raul, então, levou-me à sua casa e mostrou seu acervo. Nossa amizade nasceu assim. Durou até quando ele se foi”.

Conforme descreveu Raulzito em seu diário, o encontro com Waldir foi fantástico: “Me preparei todo. Gola para cima, topete, engomei o cabelo. Fiquei esperando ele, mascando chiclete”. Raulzito ficou perplexo ao ver que a coleção de discos de Serrão era maior que a dele:

“Ele começou a me visitar no Elvis Rock Clube, cuja sede era na minha casa. Lá se juntavam os fanáticos por Elvis. Raul foi o nono associado; Edy Star foi o 17º. Ele me chamava de Rei do Rock. E eu sempre retrucava: ‘Rei do Rock é você!’”

Em 1970, na CBS, o primeiro compacto que Raul produziu foi de Serrão: as faixas “Pare e Pense” e “A Qualquer Hora”. O pioneiro gravou, também, a antitabagista “O Crivo” – uma das primeiras
letras de Raulzito. Ao cantá-la para mim, em sua casa, os diminutos olhos de Big Ben marejam:

“Deixa o miserável/ Acaba com o pulmão/ Se eu não parar agora/ Vou acabar num buracão/ O crivo / Vou deixar de fumar”. Entre 1970 e 1972, assinando com a rubrica Raulzito, o baiano escreveu, compôs e produziu 51 canções para o cast da CBS.

O ano de 1970 assinalou temporada de intensa criatividade. Seu nome começou a ser impresso nos LPs e, cada vez mais, cantores começaram a gravar suas composições. Nesse ano, produziu artistas do naipe de Tony & Frankye, Edy Star e Diana.

O jovem Márcio Greyck vivia no apartamento de Jerry Adriani, onde conheceu Raul Seixas: “Éramos uma turma que curtia junto”, afirma. Foi emocionante, para o cantor, ter gravado “Foi Você”. Greyck adorou a canção por causa da letra “nada água-com-açúcar”.

“É a mais bela do álbum Sentimento. Meu repertório primava por letras densas e maduras que falavam de amor”. “Raul Seixas”, Greyck coteja, “era um compositor romântico de mão-cheia; como Lennon antes do Sgt. Peppers”.

Em 1995, o jornalista marcelo froes arregimentou, nos arquivos da Sony&BMG, pesquisa para reunir fitas originais das sessões de gravação da fase “Raul produtor”. Froes deparou-se com o baú pré-raul-seixístico.

Há décadas, os fonogramas assinados por Raulzito jaziam cochilando na velha CBS. “Estou Completamente Apaixonada” (Diana), “São Coisas da Vida” (José Ricardo), “Shala-la – Quanto Eu Te Adoro” (Leno) são três amostras dessas relíquias.

Assim como “Tudo que É Bom Dura Pouco”, feita sob medida para Jerry Adriani – e um dos grandes êxitos do cantor. Embora não se tratasse de cancioneiro inédito, ressalta Froes, “a maior parte das faixas seria editada em estéreo pela primeira vez”.

A operação rendeu Deixa Eu Cantar, trilogia de álbuns, que chegou a ser masterizada e prensada, contendo os 51 registros. Entretanto, de última hora, Froes viu seu projeto, literalmente, ser quebrado.

Em 1997, 3 mil cópias entraram para o catálogo de vendas da Sony. Apelando para o chamado “direito de imagem”, às vésperas do lançamento, a major foi ameaçada de processo judicial. Segundo o jornalista, o acordo seria firmado apenas mediante pagamento de alto valor.

“Puxaram esse coelho da cartola e a gravadora se assustou. Por sorte, separei meus exemplares. Creio que sejam os únicos”, estima. Restou o sentimento de frustração: “A sensação é que há desejo de abafar as origens jovem-guardistas – nada bregas – de Raulzito”.

Procurada para falar a respeito, Kika Seixas, viúva de Raul e procuradora legal de sua filha, a herdeira Vivian Seixas, preferiu não se pronunciar.

Fundador do conjunto Renato & Seus Blue Caps, Renato Barros fez amizade com Raulzito, ao se associar ao quinteto de produtores na linha de montagem da CBS, escuderia que se completava com Rossini Pinto, Walter D’Ávilla Filho e Mauro Motta.

Raulzito o chamava de José – “E eu nunca soube o porquê. Se houver vida após a morte vou perguntar a ele”, avisa Barros. A convivência entre os produtores era diária. Um ajudava o outro:
“A guitarra de ‘Playboy’, por exemplo, foi ideia dele”, revela.

Raul noticiou para Barros que haviam sido contratados pela CBS. “Todas as quartas-feiras jogávamos futebol society no Riviera Country Club. Raulzito era ruim de bola. No intervalo do jogo, ele me contou: ‘Agora somos produtores contratados. O salário é fantástico’.”

Renato e Raul cometeram das suas travessuras poéticas. O álbum dos Blue Caps, de 1970, trazia na contracapa o texto maluco “A Lei da Insequapibilidade” – redigido por Renato Barros e (anonimamente) Raulzito.

“A gente tinha mania de criar palavras que não existiam”, explica Renato. Na época, além da direção musical, os produtores eram encarregados de bolar o design gráfico das bolachas. “Criei a capa e, no verso, tinha que pôr qualquer coisa. Senão, se corria o risco de enfiarem um catálogo horroroso no lugar”.

Raulzito entrou na sala de Barros e sugeriu: “Coloca um texto doido aí, bicho”. Formularam, então, a Lei da Insequapibilidade, cuja chave é “clilófricamente simples”:

“A lei da insequapibilidade pode ser explicada baseando-se no método do Diafragma de Aquiles. Tomando-se por base os crepúsculos de diferentes dimensões, alia-se ao pentagrama diluvial pela quinta lei de Newton, referente à gravitação das histórias em quadrinhos em torno dos velocípedes (...) Insequapíveis? Sim, porém insequapóveis em certos aspectos, quando examinados pelo oblíquo lado da patinete”.

Em 1994, Marcelo Froes deu de cara com as matrizes de outra gema extraviada do rock verde-amarelo: o conceitual Vida & Obra de Johnny McCartney, álbum do potiguar Gileno de Azevedo, melhor reconhecido como o Leno da dupla Leno & Lilian.

Johnny McCartney foi o primeiro e único projeto bem-fadado de resgate que Froes conseguiu consumar com uma obra de Raul. Nesse disco, Raulzito divide cinco composições. Em 1970, Leno estava prestes a lançar seu terceiro solo pela CBS – Johnny McCartney, o primeiro LP gravado em oito canais no Brasil.

Criado em estúdio desde os 16 anos, Leno encorajou Raul a aventurar-se em sua própria “obra maldita”. A instigação, no ano seguinte, resultou em Sessão das 10. “Muita coisa que Raul aprendeu sobre estúdio foi participando de Johnny McCartney. Por exemplo, como se gravava bateria com mais peso.”

Sérgio Sampaio pôs mais pilha: “Deixa desse negócio de ser produtor”, aconselhou a Raul. No álbum Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua, frisson de 1973, Sampaio dedicou a canção “Raulzito Seixas” ao produtor de sua estreia:

“Meu nome é Raulzito Seixas / Vim da Bahia modificar isso aqui / Toco samba e rock, morena / Balada e baioque”.

Segundo o produtor Mauro Motta, pouco antes do “levante” da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista – a denominação escolhida por esse quarteto, pressupondo, ainda que ludicamente, um movimento –, Raul teria lhe confessado sua “inveja” de Sérgio Sampaio:

“Esse sou eu. Não sou produtor porra nenhuma!; sou artista”.

Somavam-se ao quarteto kavernista o glitter rocker Edy Star e a sambista paulista Miriam Batucada. Não há dúvida: Sessão das 10 é o mais inextricável dos álbuns concebidos por Raul Seixas.

A obra apregoa valores da sociedade de consumo, destilando inteligência e fina autoironia. Durante 40 anos, acreditou-se na fábula segundo a qual as 11 faixas de Sessão das 10 foram oficiadas às escondidas da direção da gravadora.

Conforme Edy Star, único kavernista sobrevivente, não rolou nada disso. O trabalho, desmistifica, foi profissional e consentido. “A gravação levou 15 dias, com hora marcada no estúdio e anuência do diretor artístico.”

Outra inverdade seria a de que, por causa da suposta traquinagem armada em Sessão das 10, Raulzito fora demitido. Na CBS, em 1972, ele ainda produziu o compacto Diabo no Corpo, de Miriam Batucada. Edy define o quarentão álbum como atualíssimo:

“O disco é muito inventivo e divertido. Sérgio, Raul e eu éramos praticamente nordestinos unidos no deboche e nas críticas”. Radicado em Madri, na Espanha, onde dirige uma casa noturna com “35 mulheres internacionais”, Star conta que ele e Raulzito se cruzaram, pela primeira vez, em meados dos anos 60, na Rádio Sociedade da Bahia.

A relação não era das melhores. Raul teria se enciumado, certa vez, por causa do frêmito que Edy ocasionara com sua interpretação de “La Bamba”, de Rich Valens. Edy contradiz: “Raul estava era puto por ter que acompanhar uma bicha louca como eu pondo fogo no auditório”, debocha.

Antes de virarem colegas de CBS, Raul Seixas e o pianista Mauro Motta foram apresentados em condições adversas: tocando ao relento. Algumas noites, o conjunto de Motta, Os Blue Jeans, se apresentava ao ar livre com Os Panteras, no Largo do Pacificador, em Duque de Caxias.

O empresário responsável pelos shows era um avarento: “Tocávamos a noite toda. De café-da-manhã, o cara nos dava uma Caracu com um único ovo”. Desiludidos, em 1969 os baianos arrumariam as malas de volta a Salvador.

Mauro e Raul cruzaram-se, novamente, na CBS, onde se tornaram parceiros em “Ainda Queima a Esperança” (Diana) e “Vê se Dá um Jeito Nisso” (Trio Esperança). De acordo com Motta, a gravação de Diana foi um “sucesso absurdo”. “Comprei um fusca zero”, sintetiza.

Um dos maiores mimos que os seguidores de Raul Seixas, em breve, terão a alegria de vivenciar é a volta de Os Panteras. O estúdio Casa das Máquinas, encostado na orla de Salvador, é o próximo destino de meu roteiro.

Na solar tarde de sábado, sinto-me privilegiado por presenciar um ensaio dos felinos remanescentes – Eládio Gilbraz (guitarra), Mariano Lanat (baixo) e Carleba (bateria). O trio conservou as garras bem afiadas.

Com sexagenária mocidade, atacam de joias do repertório de Raulzito & Os Panteras, álbum de 1968 gravado no selo Odeon. A decisão do retorno, explica Eládio, foi tomada após a reunião da banda, que abriu e fechou o palco Toca Raul! na Virada Cultural de São Paulo. Segundo ele, existe chance de gravarem um volume de inéditas.


Composições como “Questão de Tempo”, por exemplo, ficaram guardadas desde os tempos de Raulzito. A formação clássica dos Panteras raiou ao acaso, em 1962. Por meio de Olival, amigo em comum, Mariano costumava emprestar o seu violão para um desconhecido.

A demora na devolução do instrumento, certa vez, fez com que o dono fosse cobrá-lo de volta. Mariano bateu, então, à porta da casa do jovem Raul Seixas, que morava no bairro Canela, perto da residência do baixista.

Motivada pela admiração compartilhada por Elvis Presley, a cobrança virou conversa de tarde inteira:

“Disse a Raulzito que eu tinha visto o filme de Elvis 36 vezes. Daí ele me falou: ‘Eu assisti 92. Vamos montar uma banda’”, conta Mariano, que aceitou o convite na hora. Raul faria vocais e guitarra e Mariano, que era violonista, assumiria o baixo.

O grupo firmou-se de verdade em 1963, com a entrada de Carleba e Eládio. O que se seguiu é de conhecimento público: “Fomos sucesso em bailes, clubes, programas de musicais e festas no interior da Bahia e chegamos até o distante Rio de Janeiro”, pontua o baterista.

A estada fluminense foi dura e infeliz e, em 1969, o conjunto se desfez. “A gravadora não ajudava. As condições eram muito adversas”, analisa Carleba. Sobre o fato de Raul Seixas não ser um artista muito popular na sua própria Salvador, a exemplo de outros conterrâneos, ele critica:

“Salvador é uma cidade atípica. Tem música, cultura, linguagem e culinária próprias. Apesar do respeito que impõe, na Bahia Raul não tem a mesma aprovação”, reconhece Carleba.

O produtor Marco Mazzola diz que Raul sempre se lamentava: “Não consigo entender; sou baiano, mas ninguém me dá mole na Bahia”. Carleba divide tragicômica passagem, envolvendo o bonachão Carlos Imperial.

Após muita insistência, a Odeon arranjou um encontro com Imperial em sua cobertura: “Viemos da Bahia tentar a sorte no Rio”, disseram. Imperial foi curto e grosso:

“Mostra aí”. “Mostramos uma, duas, três canções do nosso LP. Imperial quieto; o Raul, nervoso. Na quarta, Imperial falou: ‘Pode parar. Entrem no primeiro ônibus de volta para a Bahia. Esse tipo de música tem 14 mil conjuntos fazendo igual. Raulzito, ainda por cima, é nome de cantor de bolero’.” Raul ficou mal depois disso, segundo Carleba.

Mas anos depois se desforrou: “Não peguei aquele ônibus”, jogou na cara de Imperial.

Autor do livro A Paixão Segundo Raul Seixas, Toninho Buda conta que seu primeiro encontro com Raul Seixas deu-se numa sexta-feira 13 de lua cheia de agosto de 1983. Os dois fizeram “um ritual de banimento” entoando o hino “Sociedade Alternativa”, no palco do I Festival de Rock de Juiz de Fora.

Somente mal-intencionados ou supersticiosos, julga Buda, o associam com satanismo. “Ele fez uma música chamada ‘Rock do Diabo’, realmente. E ele próprio disse: ‘Existem dois diabos. Um deles é o ‘do toque’ e o outro é aquele de O Exorcista”.

Para Buda, Raul, estava associado ao primeiro – que é o da inteligência, Lúcifer, aquele que entregou a luz do conhecimento aos homens. Raul não tinha nada a ver com o diabo da igreja. “Os evangélicos sempre disseram que ele era filho do capeta.

Montavam piquetes na porta de seus shows, tentando impedir que as fãs entrassem na sua ‘Panela do Diabo’.”

Da panela do diabo saltamos para a República das Filipinas. Endereçado de Manila, capital do arquipélago, recebo, em Salvador, um pacote enviado pelo velejador Jay Vaquer. Mais conhecido como “o cara que tocou guitarra” em Krig-há, nos anos 70 ele assinava Gay Vaquer.

Trata-se do copião do roteiro de O Triângulo do Diabo – Opus 666, road movie que Raulzito roteirizou, mas não chegou a realizar.

No filme, os personagens de Raul e sua então esposa, Gloria Vaquer (irmã de Jay) encontram-se com misterioso ser, o “Homem Novo” – espécie de filósofo que lhes indica o portal que leva ao Triângulo do Diabo, situado no magnético Triângulo das Bermudas.

Gloria, Jay e Raul chegaram a viajar os Estados Unidos à caça de locações. Raul Seixas era apaixonado por cinema. Em 1975, Gloria e ele foram visitar Jay, na Georgia. O guitarrista estava
cursando a escola de cinema.

Quando viu que o cunhado tinha todos os equipamentos, Raul quis rodar um filme. Jay conta: “Falei: ‘Precisamos de um roteiro’”. O orçamento seria nos moldes de Easy Rider – Sem Destino, de Dennis Hopper, ou seja, baixo. Raul começou a escrever os diálogos.

“Enquanto ele redigia, procurávamos locações. Eu aproveitava para filmar em 16 mm.” De acordo com Jay, a obra que Raul considerava mais importante de sua vida nunca foi vista pelos fãs: “Está guardada na minha gaveta”, afirma. Raul minutou no seu diário:

“Tô saindo para o Triângulo do Diabo, rodar meu primeiro filme. Escrevi todos os diálogos. Meu trabalho de todos os LPs lançados e não lançados está condensado numa fita de duas horas de projeção. Quero o Oscar”.

Durante as pré-locações, Raul recebeu a notícia: o disco Novo Aeon estava com fraca vendagem. Precisaria retornar ao Brasil para promovê-lo. Jay lançou a ideia de montar clipes com as imagens capturadas.

Dessa forma, ajudaria o cunhado a levantar uma grana para bancar a produção. No vídeo de “A Maçã”, Gloria dança no que parece ser um pentagrama satânico (na verdade, um hexagrama). Outros trechos da filmagem foram editados nos clipes de “Morning Train” e “Caminhos”.

Raul voou ao Brasil em posse dos videotapes, conta Jay. “Ele disse que terminaria os diálogos e, depois, voltaria com grana para filmarmos de verdade.” Mas Raul não voltou. Começou, porém, a telefonar para Jay pedindo que ele viesse ao Brasil arranjar as guitarras do disco Há Dez Mil Anos Atrás.

“[Roberto] Menescal [na época diretor artístico da Philips/ Phonogram] ofereceu-me cinco mil dólares para eu tocar nesse disco. Ele também comprou fotos que tirei de Raul nas filmagens de New Orleans”, conta Jay. Raul havia escrito diálogos até a cena 33 – encerrada com a frase:

“Jesus morreu com 33 anos. Assim também este script”.

Na última escala da viagem à Bahia, encaro o asfalto trêmulo da rodovia BA 93 rumo a Dias D’Ávilla, município a 70 quilômetros de Salvador, onde a família de Raul passava férias. O caminho é paralelo ao da Estrada Real, donde repousam as ruínas do Castelo da Torre, única fortaleza (edificada em 1545) em estilo medieval da América do Sul.

O trajeto conduz, também, a Juazeiro, Jacobina, Rio Real e Feira de Santana. À margem da estrada, conheço outros escombros: do Sítio de Caboatã (soerguido pelos braços de Seu Raulzão, avô de Raulzito).

Na infância, Thildo Gama também veraneou no recanto. Espantado, ele recobra a atmosfera de garoto. Pensamos em Raulzito rolando arteiro sobre a campina verdejante ou indo nadar no cristalino Embassai, rio onde os moleques reuniam-se para beber pinga injetada num fruto de caju e fumar cigarros.

Em Dias D’Ávilla, belvedere de águas minerais e lamas medicinais, o “turista” mais ilustre virou nome de avenida. Também ganhou sua face (dos tempos de Gita) esculpida em bronze no centro da praça principal.

A estação férrea inspiradora da canção “Trem das Sete” risca ao meio o lugar: “Meu pai era engenheiro de estrada de ferro. Eu conheço o sertão inteiro da Bahia. Trem era meu fascínio”, anotou Raul. É aqui que Plínio Seixas – único irmão de Raul Seixas – manifesta-se.

É ele quem me procura, surpreendentemente. Conta-me que o mano comprou-lhe um contrabaixo e o incentivou a montar o próprio conjunto: Os Eles Quatro. “Vivemos a infância dos meninos travessos. James Dean foi nosso herói; Juventude Transviada, nossa escola.”

Ainda recordamos que era Plínio o excepcional comprador das revistinhas desenhadas por Raulzito, as quais ele vendia – sem jamais finalizá-las: “O sacana não terminava os gibis. Deixava-me agoniado sem saber o final das histórias”.

A voz de Plininho soa idêntica há 50 anos, quando, na introdução de Krig-há, Bandolo!, apresentou Raul Santos Seixas bradando “Good rockin’ tonight”: “Dá uma saudade danada.”

*O jornalista Cristiano Bastos entrevistou Zé Ramalho na RS30 (mar. 09) e finaliza o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada (veja o teaser), sobre o disco Paêbirú.

"uMA rELAÇÃO cOMPLICADA"


Assim, o escritor e parceiro de Raul Seixas em alguns de seus maiores sucessos,
define a amizade que os unia


POR PAULO COELHO

Em 1989, eu estava fazendo o caminho de Roma quando soube da morte de Raul Seixas, em uma cabine telefônica, quando liguei para o Brasil (como fazia uma vez por semana) para ver se minha mulher estava bem.

Tinha três moedas de cinco francos no bolso, um minuto e meio de conversa. Eu disse: "Oi, Cris, tudo bem?" E ela: "Não sei se eu te conto". Caiu a primeira moeda, depois a segunda e daí ela disse: "O Raul morreu". Caiu a terceira moeda.

Ao contrário do que manda o figurino, eu senti uma profunda alegria. Parecia que, naquele momento, Raul estava livre, bem, contente. Lembro que passei o resto desse dia cantando nossas músicas.

Eu tinha publicado O Alquimista, mas não era o escritor que sou hoje – mesmo no Brasil. E continuei com aquela sensação de que Raul, de alguma maneira, tinha cumprido a missão a qual ele havia se proposto. Raul tinha vivido a lenda da vida dele, feito tudo o que achava que tinha de fazer.

E não deixou absolutamente nada: foi uma escolha dele. Nunca o vejo como uma vítima do sistema ou um cara que entrou num processo de autodestruição – nada disso. Foi uma escolha consciente, muitas vezes, conversamos a respeito.

Eu sempre demonstrei certo receio, contudo ele dizia que eu não me preocupasse: ele estava fazendo exatamente o que queria. No dia de sua morte entendi perfeitamente. A nossa relação sempre foi muito complicada desde o começo.

Quando começamos a trabalhar juntos, nos víamos todo dia. Ou ele vinha para minha casa ou eu ia para a casa dele. Era uma relação muito intensa, e uma competição acirrada. Raul sempre achava que eu queria mostrar que era melhor que ele, e vice-versa.

Eu era o intelectual que sonhava morrer incompreendido, e Raul tinha esse poder de comunicação muito grande – muito grande. Pouco a pouco, nós começamos a desenvolver toda a ideologia da Sociedade Alternativa, unindo o ideário hippie.

No disco Krig-Há, Bandolo!, a música-chave é "Ouro de Tolo", que é dele, e tem "Rockixe", quase uma declaração de princípios. Pouco a pouco começamos a nos entender. Apresentei as drogas a Raul, as sociedades secretas e essas coisas todas.

Será que fiz bem? Raul entrou de cabeça nisso tudo. Em dado momento, eu disse: "Chega, parei". Mas Raul continuou, uma escolha absolutamente consciente, e ninguém pode julgá-lo por isso. A única coisa que me desagrada hoje é uma certa manipulação da lembrança dele.

E o que me surpreende muito é a atualidade das coisas que fizemos e, também, a atualidade da presença do Raulzito. Raul Seixas é mais atual que nunca. Vemos, nesse caso, a tragédia como força que consolida a carreira de alguém.

Ele não precisaria ter morrido da maneira que morreu, mas repito que foi sua escolha. A tragédia consagra – infelizmente. Assistimos ao Jim Morrison no passado, e assistimos ao Michael Jackson agora. A imprensa fez tudo para destruir Michael Jackson e, quando ele morreu, a comoção popular foi gigantesca.

O mesmo aconteceu com o Raul. No final de sua vida, era convidado para programas de TV, visto como uma raridade. A tragédia faz com que a pessoa ganhe uma dimensão completamente diferente. Ou seja: ele se sacrificou por isso.

Desde os mitos mais ancestrais, das mortes dos deuses, até hoje. John Lennon é mais importante que Paul McCartney porque foi assassinado. Na verdade, ambos têm o mesmo peso. Você enfrenta a tragédia e se transforma.

Nossa relação era pessoal e, claro, foi se desgastando. Duas personalidades muito fortes. Daí nosso trabalho ser muito criticado. Porque não era aquela coisa: "Me mande um cassete que vou botar uma letrinha".

Rolavam discussões e momentos de agressão. Nunca chegávamos às vias de fato, entretanto eu lembro que algumas vezes chegamos muito próximos a isso. Em Brasília, ele chutou uma mesa e eu chutei um abajur. A gente ia se engalfinhar, mas Gloria, que estava com ele, botou panos quentes.

Lembro de pensar: "Agora vai sair porrada". Vinte minutos depois, estávamos sentados compondo. Não ficava resquício de ódio. A coisa que eu mais agradeço dessa relação foi ele ter me ensinado que cultura popular não é, necessariamente, uma coisa negativa.

Ao contrário, a capacidade de se comunicar com todos é muito positiva. No fundo, é o objetivo do ser humano, a comunicação com seu próximo. A segunda coisa que ele me ensinou é a linguagem e de como fazer uso dela.

Eu me lembro de gostar de músicas do Raul, antes de ele ser famoso, que ele fazia para outras pessoas na CBS. Eu o ouvia e dizia: "Então essa música é sua. Que maravilha!" Tem uma música que diz: "Estou voltando pra casa / Camisa amassada / Mais um dia de trabalho / Que afinal chegou ao fim".

Eu não sei nem quem canta. Só vim saber muito tempo depois que a canção era dele. Descrevia a rotina que tanta gente vive, do cara que vai de ônibus trabalhar. Raul me ensinou a ver isso e guardo até hoje.

Sem dúvida, minha vida tem dois momentos-chave: um é o Caminho de Santiago, quando assumo, realmente, ser escritor. O outro é o encontro com o Raul, quando deixei de querer ser gênio incompreendido. Recordo que eu dava poesias para Raul ler.

A primeira versão de "Al Capone", por exemplo, era um grande tratado. O Raul disse: "Não é nada disso, cara." Eu, irritado, respondi: "Você quer algo como 'Al Capone, vê se te emenda'?"
Ele disse que sim. Eu respondi:

"Raul, não se escreve dessa maneira", mas a frase ficou em minha cabeça. "'Vê se te emenda', que coisa horrorosa." E, só para sacanear, continuei: "Já sabem de teu furo, nego, no imposto de renda". E perguntei: "Você acha que isso é bonito?" Ele: "É ótimo".

Falei: "Então tá". Fui para casa e escrevi a letra de "Al Capone". Ele nunca dizia que a letra estava uma droga. Dizia: "Não é assim, sabe?" Letra de música não é poesia. Letra de música é letra de música. É preciso libertar-se um pouco dessa ideia.

Aprendi fazendo letra de música que é preciso ser absolutamente objetivo – sem ser superficial. Quando você canta: "Eu perdi o meu medo da chuva / Pois a chuva voltada pra terra traz as coisas do ar", a frase se encontra no contexto de uma música sobre o casamento, mas poderia muito bem estar totalmente separada desse contexto.

Quando terminei de escrever "Gita", cujo primeiro título era "A Letra A Tem Meu Nome", a música ficou com quatro minutos. Eu disse: "Pô, agora vou ter que cortar". Ele retrucou: "De jeito nenhum. Não vai cortar nada". Essa era a cumplicidade que tínhamos.

Para os padrões da época, "Gita" era uma música muito longa. Ele disse: "Eu vou usar a letra inteira". "A gravadora vai vetar", eu disse. "Não vai, não", ele respondeu: "Já tive sucesso com o Krig-Há, Bandolo!" E realmente não vetaram.

Nessa noite, caiu uma grande tempestade que cortou a luz. E nós compondo "Há Dez Mil Anos Atrás" a luz de vela. Levamos para a gravadora e a música deu certo. Só vim a chorar a morte do Raul seis meses depois. No dia da morte dele, eu senti uma espécie de estranha euforia.

Sonhei com o Raul, que ele estava muito bem. Um belo dia, eu estava falando com um amigo, Edinho Oliveira, e de repente eu disse: "O Raul..." E aí desabei, comecei a soluçar. Não conseguia parar de soluçar; eu chorava sem parar. Chorava tudo o que não havia chorado pela sua morte.

Quando terminei de chorar, senti de novo aquela paz. Hoje, enfim, eu vejo Raul Seixas tendo o reconhecimento que merece. Em vida havia muito preconceito, todos achavam que MPB era autêntica e rock brasileiro não merecia nenhum respeito. Mas as coisas são assim.

Maktub.

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Cristiano Bastos
Mar das Caraíbas, Jamaica
Self Made-Man. Jornalista. Co-autor do livro Gauleses Irredutíveis. Colaborava com a Bizz. Foi repórter da Bien'Art (Fundação Bienal de São Paulo). Escreve no site Senhor F. Faz reportagens para a Rolling Stone. Dirige o doc Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú - Caminho da Montanha do Sol (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho
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